Pode a pesquisadora desejar?: etnografia nos cinemas pornôs de Fortaleza (Ceará/Brasil)
Juliana Frota da Justa Coelho.
XXXI Congreso de la Asociación Latinoamericana de Sociología. Asociación Latinoamericana de Sociología, Montevideo, 2017.
Dirección estable:
https://www.aacademica.org/000-018/465
Resumen
Esta comunicação objetiva problematizar práticas sexuais consideradas dissidentes a partir das sociabilidades nos espaços de cinemas pornôs, conhecidos como “cinemões”, do centro da cidade de Fortaleza, com ênfase no Cine Majestick. Para pensar essas práticas, parto de uma perspectiva geopolítica e situada de pesquisa que problematiza as hierarquias de sexualidade, gênero, desejo e corpo como saberes localizados e parciais, ou seja, imbricados em redes de poder sexopolíticas, privilégios e subalternidades que constantemente são ressignificados e atualizados. Por sexopolítica, entendo as técnicas de normalização e patologização das sexualidades por meio do controle dos prazeres, da (in) visibilidade de práticas sexuais e de desejos, com o intuito de assegurar uma ordem sexual e social que privilegia a heterossexualidade como lei a ser seguida. No entanto, vê-se com Paul Preciado que não existe sexopolítica sem resistências, pois os sujeitos podem se apropriar das normas e técnicas de “normalização” de seus corpos e desejos, agenciando outras possibilidades políticas de subversão de padrões hegemônicos. A sexopolítica, portanto, também diz respeito à circulação dos corpos nos espaços, seus silenciamentos e visibilidades. Ela também se encontra nas arquiteturas de praças, prédios, cinemas e “cinemões”, enfim, penso que se encontra em um ideal de Centro (de Fortaleza, no caso dessa comunicação e da pesquisa de doutorado) que administra a distribuição dos corpos pela cidade. Estar em um campo onde a possibilidade de práticas sexuais é a maior atração, com baixa frequência de mulheres, implica em questionamentos éticos e metodológicos: Pode a pesquisadora desejar em campo? Como o desejo circula no espaço dos “cinemões”? Pode o desejo “pornográfico” fissurar normatividades que dizem respeito aos binarismos identitários heterossexual/homossexual, homem/mulher, espectador/estrela pornô, corpo “que importa”/corpo abjeto? Proponho que, a partir das práticas sexuais consideradas dissidentes que se dão nesse cinemão e em outros cinemões, os referidos binarismos podem ser borrados. O borrar dessas categorias dar-se-ia pelo exercício de desejos considerados pornográficos, obscenos (quem em latim significa fora de cena), estimulados por esses espaços, ou seja, a plateia dos “cinemões” também pode ser palco a partir de agenciamentos corpo-desejo-discurso que visibilizam práticas de gênero, sexualidade, desejo e corporalidade, ao mesmo tempo em que velam tais práticas ou as subvertem. Os sujeitos, portanto, são estimulados a se tornarem cada vez mais visíveis dentro dos “cinemões” (onde o desejo obsceno - que em sua etimologia latina significa fora de cena – entra em cena), visíveis ainda que na penumbra, pois a visibilidade está aí na ordem do desejo considerado dissidente.
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