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Uma história para a devastação do “Coração da América do Sul”: história e natureza em Mato Grosso, Brasil, 1964-1985
BERGO DE CARVALHO y Ely.
XIV Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia. Departamento de Historia de la Facultad de Filosofía y Letras. Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza, 2013.
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Resumen
A pesquisa em tela busca compreender as representações de natureza presente nos livros de divulgação, “didáticos”, sobre a história do Estado de Mato Grasso, Brasil, publicados entre 1964 e 1985. As representações da natureza não são naturais, são frutos de uma complexa inter-relação dos sistemas naturais e antropossociais. Tal complexidade aqui é articulada a partir de um ponto específico, a memória. Ao produzir um passado, invariavelmente, tenta-se imprimir neste passado, elementos que justifiquem projetos de futuro, os quais, em geral, implicam em acesso diferenciado e desigual ao mundo natural e posições hierarquizadas em diferentes configurações sociais, que implicam na coinvenção das identidades e agentes. O golpe civil-militar de 1964, no Brasil, inaugurou um regime que propiciou uma violenta colonização, que levou centenas de milhares de pessoas a migrarem para Mato Grosso. Por um lado, a representação da população pobre mato-grossense como preguiçosa e incapaz de transformar a natureza em riqueza, foi mobilizada para justificar o seu processo de expropriação. Por outro lado, a atração de um dado tipo de migrante “moderno”, proveniente do Sul do Brasil, tinha como justificativa a sua suposta capacidade “superior de trabalho”. Como resultado da análise, em andamento, de mais de duas dúzias de livros, de divulgação da história regional para o grande público, produzidos no período, destaca-se aqui que, a criação do Instituto História de Mato Grosso – IHMT, em 1919, assinala o grande momento de sistematização da construção de uma historiografia e de uma identidade regional. IHMT teve uma grande produção inicial e depois passou por um período de menor atividade, retomando com força sua atuação na década de 1960. Seguindo esse primeiro esforço, a identidade regional é apresentada, nos citados livros, como forjada no “mito bandeirante”, representação cômoda para uma elite que se pensava como bastião da “civilização” no “sertão”. Tratam-se de livros com uma história cronológica linear, uma história política e bastante factual. Vinculada a um projeto modernizador, que deslegitimava o acesso de grupos, hoje tidos como “tradicionais”, ao acesso dos recursos naturais, por entendê-los como portadores do atraso e da degradação do mundo natural. A abordagem de tais obras permite entender como a História ajudou a construir e legitimar uma dada relação devastadora do ambiente, hegemônica naquele momento.
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